Arquivo mensal para Setembro, 2006

Dahrendorf: O 11 Setembro e o Novo Autoritarismo

[Prelúdio: no meu trabalho das segundas-feiras, que é ser editor do 5dias tinha-me proposto como TPC traduzir este texto. Hoje descubro que num gesto generoso o Ivan Nunes já o fez para o mesmo 5dias. Como não é todos os dias que alguém nos poupa trabalho, mando daqui os meus agradecimentos ao Ivan, e aproveito para recomendar ainda os comentários que ele faz ao texto de Dahrendorf, um liberal que não se deixou levar pela “Guerra ao Terror”.]

O 11/9 e o novo autoritarismo, por Ralf Dahrendorf

Cinco anos depois dos ataques às Torres Gémeas em Nova Iorque e ao Pentágono em Washington, o 11/9 já não é uma simples data. Entrou nos livros de história como o começo de alguma coisa nova, talvez de uma nova era, ou pelo menos de um tempo de mudança. Os atentados terroristas em Madrid, Londres e outros lugares também serão lembrados; mas o 11/9 é a data que ficará como símbolo, quase da mesma forma que Agosto de 1914.

Mas o que começou a 11 de Setembro de 2001 foi realmente uma guerra? Nem todos se contentam com esta definição americana. No auge do terrorismo irlandês no Reino Unido, sucessivos governos britânicos fizeram tudo o que podiam para não conceder ao IRA a ideia de que se estava a travar uma guerra. «Guerra» teria significado aceitar os terroristas como inimigos legítimos, em certo sentido como iguais numa luta sangrenta para a qual se aceitam certas regras.

Continuar a ler ‘Dahrendorf: O 11 Setembro e o Novo Autoritarismo’

O Paleólogo

[do Público de 23 setembro 2006]

Vemos pois que Ratzinger não defendeu a liberdade de expressão dos caricaturistas. Porém, tal não é razão para lhe fazer o mesmo seis meses depois.

Quando no início do ano rebentou a polémica das caricaturas dinamarquesas, o Papa tomou uma posição clara: a liberdade de expressão não inclui o direito a blasfemar. O Vaticano e toda a hierarquia católica foram unânimes em considerar que o jornal dinamarquês não deveria ter publicado as caricaturas porque, como disse então o Patriarca de Lisboa, “com o sagrado não se brinca”, ou melhor ainda, “o respeito pelo sagrado é algo que a cultura não pode pôr em questão, mesmo em nome da liberdade”. Quando a maior parte dos intelectuais defendia que a liberdade de expressão é sagrada, a igreja católica veio pôr as coisas nos seus termos: nem pensar; o sagrado é que é sagrado.

Continuar a ler ‘O Paleólogo’

Discurso de Ratisbona

[Versão oficial inglesa]

Papal Address at University of Regensburg

“Three Stages in the Program of De-Hellenization”

REGENSBURG, Germany, SEPT. 12, 2006 (Zenit.org).- Here is a Vatican translation of the address Benedict XVI delivered to scientists at the University of Regensburg, where he was a professor and vice rector from 1969 to 1971.

This is the version the Pope read, adding some allusions of the moment, which he hopes to publish in the future, complete with footnotes. Hence, the present text must be considered provisional.

* * *

Faith, Reason and the University
Memories and Reflections

Distinguished Ladies and Gentlemen,

It is a moving experience for me to stand and give a lecture at this university podium once again. I think back to those years when, after a pleasant period at the Freisinger Hochschule, I began teaching at the University of Bonn. This was in 1959, in the days of the old university made up of ordinary professors. The various chairs had neither assistants nor secretaries, but in recompense there was much direct contact with students and in particular among the professors themselves. We would meet before and after lessons in the rooms of the teaching staff. There was a lively exchange with historians, philosophers, philologists and, naturally, between the two theological faculties.

Continuar a ler ‘Discurso de Ratisbona’

5 dias

Nos próximos tempos, é aqui que vou passar as minhas segundas-feiras. Passem por lá para uma visita.

A menina da selva

[do Público de 16 setembro 2006]

Tal como os meninos da selva aprenderam a linguagem dos animais, Natascha aprendeu a linguagem dos media. É como se tivesse fugido da sua masmorra pelo écran da televisão.

Temos um fascínio antigo e mitológico pelas histórias de meninos da selva. Vem desde antes da fundação de Roma, da lenda de Rómulo e Remo, criados por uma loba nas margens do Tibre. Nasce das dúvidas que temos sobre nós mesmos e sobre as origens daquilo que em nós é humano. Por outros palavras, da velha questão sobre o inato e o adquirido. Por isso nos interessamos tanto pelas pessoas que não sociabilizaram, julgando que elas nos darão pistas para os nossos enigmas mais irresolúveis.

Continuar a ler ‘A menina da selva’

11 de Setembro e os media

[do Público de 9 Setembro 2006]

As redes fechadas, civis ou militares, que transportam informação exclusiva, e que serviam para fazê-lo de forma mais rápida e menos adulterada, já não são superiores ao cúmulo de redes civis mais ou menos abertas.

Há cerca de dois meses, a revista americana Vanity Fair publicou as transcrições do que se disse na secção regional Nordeste do Comando de Defesa do Espaço Aéreo Norte-Americano (NORAD, na sigla original) durante a manhã de 11 de Setembro. Na versão para internet, que está disponível em http://tinyurl.com/rc2dn, o utilizador pode clicar para ouvir as gravações do que foi dito na sala de comando e ainda os sucessivos telefonemas que foram sendo feitos para as autoridades civis e militares à medida que os ataques se iam sucedendo. A versão completa com áudio é, sem dúvida, muito superior. Os militares que tinham por missão proteger cidades como Nova Iorque, Chicago, Boston e Washington — e muitos deles, quando entraram para aquele serviço, eram treinados para uma guerra com a União Soviética — recebem os primeiros sinais de que algo se está a passar, trocam impressões, ficam confusos, entram em pânico, dizem palavrões, chegam a rir-se de nervoso, perguntam ao superior se aquilo é um teste, gritam ao telefone e, em geral, não conseguem acreditar no que está a acontecer e, de repente, já aconteceu. Este é o mundo pré-11 de Setembro. Mesmo logo a seguir aos ataques, ainda não tinha ganho a sua categoria histórica e a sua nomenclatura oficial.

Continuar a ler ’11 de Setembro e os media

Em aporia

[do Público de 3 setembro 2006]

Os políticos vão para a guerra porque acham que a vitória está no papo.

Quando a guerra do Líbano começou escrevi aqui que a raiz do conflito estava na fraqueza intrínseca do governo israelita. Ehud Olmert retaliou de forma desproporcionada em Gaza por três razões: 1) porque podia, 2) era fácil — afinal o território nunca deixou de estar dominado pelo exército israelita — e 3) precisava de ocupar o lugar que pertencera a Ariel Sharon. Mas retaliou no Líbano porque não tinha outra hipótese: se havia atacado Gaza pelo rapto de um soldado, como não atacar o Sul do Líbano pelo rapto de dois soldados? Quanto ao Hizbollah, a aposta estava ganha à partida: se Israel não retaliasse poderiam gabar-se de ter provocado os seus inimigos e saído impunes; se Israel retaliasse estariam implicitamente a ser elevados ao estatuto de adversário militar de um estado e de um exército poderosos — e então bastaria aguentar para não perder. Numa guerra assimétrica, mais importante do que a assimetria de meios é a assimetria de objectivos.

Continuar a ler ‘Em aporia’