Arquivo mensal para August, 2006

Transistor

[Já saiu a Blitz #3. De Svengali, a minha coluna, no número anterior:]

Aqui há uns anos, um rádio de pilhas bastava. Era de noite. Varrendo o breu enquanto se rodava o botão, reproduziam-se ruídos desconformes, guinchos que glissavam até implodir num grave, estalidos e chuva estática como grilos e cigarras eléctricas. Oscilando o sintonizador para trás e para diante, ritmicamente, fazia-se uma música particular. Em todo o mundo, crianças sem sono ligavam o rádio baixinho debaixo dos cobertores e ficavam magnetizadas. Às vezes dava-lhes medo: de onde vinham aqueles barulhos? seria de outro planeta? que desejavam eles? estariam para invadir-nos?

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Como se pode ser Persa

[do Público de 26 de Agosto]

A ingénua francesinha não achava natural que houvesse mundo para lá dos salões da Tulherias ou de Versalhes, e também parece hoje a muitos impossível que se possa ser outra coisa que não ocidental.

Foi para desenjoar das maçadas que lhe dava o seu cargo no parlamento-tribunal de Bordéus que o jovem barão de Montesquieu começou a escrever às escondidas um divertimento literário. Imaginou primeiro um romance de tons exóticos, de preferência orientais, embrulhando nas entrelinhas uma sátira local, de preferência anti-parisiense. Chamou-lhe As Cartas Persas. Mas ao escrevê-lo acabou por descobrir uma fórmula de tal sucesso que durante o resto do século XVIII ninguém se cansou de o imitar: um romance epistolar que tinha uma mistura, em partes quase iguais, de filosofia e erotismo. A Europa cristã estava sedenta de ambas as coisas e quando o livro saiu, em 1721, o sucesso e o escândalo vieram também em doses iguais. Uma das personagens tinha o descaramento de escrever nas suas cartas que a Europa tinha um “grande mágico chamado Papa que faz crer às pessoas que três são apenas um, que o pão que se come não é realmente pão, e que o vinho não é realmente vinho”. Perante os protestos dos católicos, Montesquieu justificou-se dizendo que se as suas personagens eram persas, forçoso era que pensassem como persas e não como cristãos. Ora se os cristãos chamavam feiticeiros aos aiatolas, não seria provável que fizessem coisa semelhante os persas? A resposta dava-a uma personagem do próprio romance, uma jovem francesa encontrada na Ópera ou num dos palácios reais: “Ai, senhor, que coisa mais extraordinária! Como se pode ser persa?”

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A Senhora da Agonia

Provavelmente para demonstrar que não é um engraçadinho, Pacheco Pereira verbera o que chama de derrotismo:

«Lendo a imprensa impressiona como é cada vez mais forte o derrotismo puro, em versões brutas ou sofisticadas, mas derrotismo […] mil e uma variantes do better red than dead circulam por aí. A forma mais peculiar do derrotismo é a de achar que tudo está mal, mas também não há nenhuma receita para ficar bem. Os que agem (EUA, Reino Unido, Israel) fazem tudo mal e só agravam o problema; os que não agem (França. UE, “comunidade internacional”, ONU) fazem também tudo mal porque não agem. Bem faz o Irão, o Hezbollah, a Al Qaida, o Hamas, e, numa versão mais caseira, os émulos de Zapatero.

Isto vai durar sempre? As minhas últimas reservas de optimismo alimentam debilmente a esperança de que não, em grande parte por um argumento ad terrorem: as coisas ainda vão piorar muito, muito mesmo, e pode ser que a catástrofe possa ser salvadora. Não é garantido, mas é uma esperança.»

O tom apocalíptico, por certo, não espantará ninguém: o forte de Pacheco Pereira está precisamente em ser uma Nossa Senhora da Agonia com barbas. Mais curioso é ver que aqueles a quem Pacheco Pereira chama derrotistas sejam, numa análise mais cuidada, os que não quiseram a guerra do Iraque nem acharam que ela tivesse algo que ver com o terrorismo, ou seja, derrotistas são precisamente os que não foram derrotados.

O que chega a dar um arrepio na espinha é a forma como Pacheco Pereira literalmente põe as suas esperanças em novo terror, muito terror, para que todos vejam como tem razão e se juntem a ele na ressaca de uma “catástrofe salvadora”. Ter-se-á dado conta do que escreveu? Assim de memória, não me lembro de ver maior confissão de insegurança (e derrota) do que alguém depositar as suas “últimas reservas de optimismo” na esperança de que bin Laden lhe proporcione uma tragédia que lhe salve os argumentos.

A nossa melhor proposta

Todos teriam de trocar as bombas pelos fastidiosos dossiês de Bruxelas: uma forma de resolução de problemas (e às vezes não-resolução) que dá mais dores de cabeça mas menos mortos inocentes.

Mais uma crise internacional, mais uma ocasião para lastimar a falta de influência da Europa. Felizmente, a desunião europeia impediu o grande disparate que seria o envio de uma força da União para o Sul do Líbano, onde ficaria imediatamente presa numa armadilha: se confrontasse o Hezbollah, seria tratada como ocupante; se não o confrontasse, seria tratada como cúmplice. Mal por mal, antes mandar soldados sob a égide da ONU, que está mais habituada a estas missões ingratas. A União Europeia, enquanto tal, deve preservar-se. Na altura certa, terá uma cartada melhor para jogar: convidar Israel, o Líbano e o futuro estado da Palestina a tornarem-se membros de pleno direito da União.

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“Se queres julgar, compreende”

[do Público de 12 de Agosto]

Mas as crianças de quatro anos chegam aos cinco anos, e aí começam a exigir-nos mais: “eles são maus porquê, mãe?”

Cada ameaça de atentado terrorista dá aos políticos uma janela de oportunidade para tratar os cidadãos como crianças de quatro anos. Para ser rigoroso, o mesmo acontece nos atentados reais, mas nessas ocasiões estamos demasiado ocupados com a brutalidade daquilo tudo para prestarmos atenção à pincelada grossa com que os nossos líderes pintam a realidade do mundo. Mas numa ocasião em que felizmente não há vítimas a lamentar, sobressaem em toda a sua rudimentar trivialidade as declarações de Blair, despachando uma definição dos terroristas como pessoas com “mal nos corações” ou “com corações muito maus”, e os afloramentos retóricos de Bush — esse magnífico simplificador — que esta semana andaram em torno disto: “detestam as nossas liberdades”, “querem destruir aqueles que amam a liberdade, magoar a nossa nação”, “este país está mais seguro do que antes do 11 de Setembro, mas obviamente não estamos completamente seguros porque ainda há gente que conspira e gente que nos quer magoar por causa daquilo em que acreditamos”. Com quem pensam eles que estão a falar?

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Pataniscas

[do Público de 5 de Agosto Obrigado ao Pedro Vieira e ao Luís Aguiar-Conraria por terem ajudado a quebrar um galho recuperando a carta do leitor a que me refiro na terceira “patanisca”.]

Para os neoconservadores e bushistas em geral, chegou o momento de reconhecer que possuem uma versão invertida do dom de Midas: tudo o que tocam vira escombros.

1. A Lista. A lista dos devedores ao fisco foi a solução que arranjou um antigo ministro das Finanças, Campos e Cunha, para não se quebrar o sigilo bancário. Quando foi publicada esta semana começou a cumprir aquela trajectória, tão portuguesa, que vai de não se querer incomodar alguns até não se contentar ninguém. Para já, contudo, parece haver grande satisfação pela exposição dos “caloteiros” — satisfação que eu não sinto nem quero acompanhar. Os caloteiros que podiam pagar fizeram-no antes da divulgação da lista; sobraram provavelmente os falidos e os acossados. Mesmo sabendo que esta artimanha permitiu fazer entrar nos cofres públicos dinheiro que era de nós todos, não posso ficar contente com a violação dos direitos daqueles indivíduos, nem com a correspondente degradação da comunidade em que eles se inserem.

A quebra do sigilo bancário não implicaria nada disto: quem tem dinheiro num banco já partilha esta informação com a instituição financeira, as suas filiais, os seus funcionários; passaria a partilhá-la também com um único serviço público e para um único fim restrito. As coisas ficariam entre o contribuinte, o seu banco e as finanças; não entre o contribuinte, o vizinho, o chefe lá do trabalho e os colegas dos filhos na escola.

A exposição dos nomes de prevaricadores tem uma triste história — por exemplo, nas listas de penitenciados dos autos-da-fé — e tristes são estes seus ecos modernos. Mais tristes ainda por serem a resposta inequívoca a esta pergunta: entre os direitos dos bancos e os dos cidadãos individuais, quais sacrificaram os nossos governantes eleitos em primeiro lugar?

2. O Toque de Midas. Esta semana soube-se que o embaixador britânico em Bagdad considera que o desfecho mais provável no Iraque é uma guerra civil, onde aliás já chegámos em baixa intensidade. Mesmo a versão revista em baixa das expectativas de Bush, “um governo que se consiga sustentar e defender o Iraque”, é menos provável do que a guerra civil. Ontem soubemos que dois dos principais generais americanos acham o mesmo.

Para os neoconservadores e bushistas em geral, chegou o momento de reconhecer que possuem uma versão invertida do dom de Midas: tudo o que tocam vira escombros. O Iraque está à beira do precipício, o Afeganistão não anda longe. Do Líbano, essa jóia do curriculum no Verão passado, pouco resta para dizer.

Se exceptuarmos Francis Fukuyama, que reconheceu os erros e se afastou do movimento, chega a ser indecorosa a forma como aqueles que defenderam a Guerra do Iraque continuam a pretender possuir uma espécie de monopólio sobre a realidade. Começaram a guerra por causa das armas de destruição em massa; continuaram-na para depor Saddam; depois para instaurar uma democracia liberal; a seguir para que os iraquianos se defendessem a si mesmos. Para consumo doméstico prometiam um governo iraquiano pró-ocidental e “amigo de Israel” (não sei se viram como Nuri al’Maliki, primeiro-ministro iraquiano, se escusou a condenar o Hezbollah). Quando começaram, o Irão era reformista e conciliador; hoje está extremista, converteu-se numa poderosa potência regional e pode agradecer o empurrão aos disparates de Bush. No coluna do “haver”: Saddam. Na coluna do “deve”: tudo o resto.

E, no entanto, continuam a exigir que a opinião pública lhes seja tão maleável quanto os pais de uma criança birrenta.

3. Uma resposta. O leitor J.C. Fernandes, da Maia, escreveu para protestar contra a minha coluna da semana passada. A sua carta saiu no Público de ontem, e nela me pede desculpa por me chamar “estúpido”. Não precisa de pedir desculpa, caro leitor; quem nunca chamou estúpido a um colunista que atire a primeira pedra. O meu texto está disponível, para isso mesmo e outras coisas, em http://ruitavares.weblog.com.pt — onde o leitor poderá confirmar que o tresleu, o citou mal e o distorceu literalmente a partir da primeira palavra: nem o título escapou. Eu próprio não responderia se o leitor, por sua vez, não me tivesse acusado de chamar estúpida “a uma nação inteira”, que se pressupõe ser Israel.

Esta acusação é inadmissível.

Desde logo, porque é falsa; pelo contrário, afirmei que uma das grandes forças de Israel era o seu povo. Acima de tudo, porque escrever tal coisa seria racista, esse sim o mais estúpido sentimento do mundo. Mas disso saberá certamente o leitor, que escrevendo sobre os povos vizinhos de Israel diz que são “turbulentos, extremistas, preguiçosos e pouco fiáveis”, não é verdade?

Propõe-me que imagine como seria se Portugal fosse atacado a partir da Galiza como Israel a partir do Líbano. O pressuposto é o de que Israel faz apenas “o normal”, o que todos os países fazem. A realidade não confere. Espanha foi alvo de terrorismo durante décadas, e sabia que a ETA se escondia no País Basco francês. Nunca bombardeou Saint-Jean-de-Luz. O Reino Unido foi alvo de terrorismo durante décadas e sabia que o IRA se organizava na República da Irlanda. Nunca bombardeou Belfast, muito menos Dublin. Há menos de um mês, sete atentados simultâneos mataram mais de duzentas pessoas em Bombaim. Há fortes suspeitas de que os autores tenham vindo da Caxemira paquistanesa. Todos os ocidentais louvaram a contenção da Índia; e no entanto, ao contrário do Irão, o Paquistão já tem armas nucleares e partilha uma fronteira terrestre com a Índia.

A lição é clara: o terrorismo é uma questão de segurança, policial, judicial, política. Pode ser atacado, com mais ou menos sucesso, por qualquer destas vias. Quando passa a ser uma questão militar, perpetua-se.

[Clique para ver reprodução da carta] A carta também se encontra transcrita no primeiro comentário.

O Fiasco do Milénio

[Já saiu o número 2 da Blitz, onde tenho uma coluna regular chamada Svengali, sob esta epígrafe do Trilby de George du Maurier

“[Svengali] conseguia ser impertinente de uma forma grosseira. Tinha um estilo de humor cínico que era mais ofensivo do que engraçado, e ria sempre da coisa errada, no momento errado, no lugar errado. E a sua gargalhada era sempre derrisória e cheia de malícia.”

Eis o texto do número 1, de Junho 2006]

Estamos em 2006 e eu tenho de varrer a casa — eu ou alguém por mim. Mas tem de ser humano. Não há ratos mecânicos, escondidos por detrás do rodapé, acorrendo segundos depois de uma bola de cotão ter pousado, estridente, no soalho.

Olho para os rodapés da minha casa.

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