Arquivo mensal para Julho, 2006

A fraqueza de Israel

[do Público de 29 de Julho]

Estar preso à obrigação da demonstração de força é a pior forma de fraqueza. Provocações ilegítimas há sempre; mas o que chamaria o leitor a um indivíduo que respondesse sempre violentamente a tudo? Forte ou fraco?

Israel tem um quarto do tamanho de Portugal e cerca de três quartos da sua população: sete milhões contra dez milhões. Apesar de uma tradição intelectual portuguesa, de António Vieira a Fernando Pessoa, ver grande identidade entre a “alma” portuguesa e a do povo judeu, as semelhanças entre o nosso país e o único estado judeu do mundo são hoje poucas: Portugal é o país onde toda a gente acha que nunca se consegue nada, Israel um jovem estado onde se acredita que tudo é possível.

O Líbano tem pouco mais de um décimo do tamanho de Portugal, mas nesse território vivem quatro milhões de pessoas. É um país multi-étnico, multi-religioso — dezassete comunidades étnicas e religiosas diferentes — e democrático. No ano passado, depois da “Revolução dos Cedros”, o Líbano foi louvado como exemplo de normalização. George W. Bush apresentou o Líbano como a melhor prova da teoria dos dominós democráticos no Médio Oriente. Um ano depois, talvez não haja melhor demonstração da importância que a democracia tem nas reais motivações de Bush naquela região do que a facilidade com que o “melhor exemplo” foi sacrificado.

Toda a gente sabe que entre as maiores forças de Israel se contam usufruir do apoio da única super-potência, possuir um dos melhores exércitos do mundo e ter um povo com capacidade de sacrifício e resistência, herdeiro da pior catástrofe da história europeia.

Fala-se menos das fraquezas de Israel. No entanto, elas exibem-se claramente na presente guerra.

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Mahmoud Al-Zheimer

Ainda sobre células estaminais embrionárias, imperdível o clip do Daily Show sobre o veto de Bush.

Valores relativamente absolutos

[do Público de 22 de Julho]

O que mais me surpreendeu, porém, foi esta alegação genérica de que para Bush “matar é errado”. Para mim, é novidade.

George W. Bush vetou esta semana uma lei de financiamento público para investigação em células estaminais embrionárias. Estas encontram-se em embriões de quatro ou cinco dias, que nessa fase não passam de um novelo de algumas dezenas de células, e os cientistas pensam que elas têm capacidade para se transformar em células de praticamente qualquer tecido. No estado actual da pesquisa julga-se que doenças como as de Alzheimer e Parkinson possam vir a ser vencidas pela investigação em células estaminais. Também existem algumas células estaminais em humanos adultos, mas estas são menos plásticas e têm menos potencial curativo.

A maior parte da opinião pública americana quer que o sector público apoie fortemente a pesquisa em células estaminais e tem esperanças de que este tipo de pesquisa possa vir a evitar muita morte e sofrimento. Para certos cientistas, aquele favo de células não pode sequer ser considerado um embrião, uma vez que ainda não começou a diferenciação orgânica nem se implantou no útero. No entanto, resta o facto indesmentível de que eu e o leitor que está a ler agora estas linhas já fomos, em tempos, um embrião de quatro ou cinco dias. Para nós, essa é uma fase longínqua e esquecida, tanto física como mentalmente. Para George W. Bush, que ainda não colocou grande distância entre si e a sua fase embrionária, aquele novelo é equivalente a um humano nascido e crescido.

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Rescisão de contrato

Lisboa, 20 de Julho de 2006
Exmos(as). Srs(as).,

Venho por este meio comunicar-vos a rescisão do contrato de fornecimento do serviço TVCabo no meu domicílio, assinalado ao lado, sob o número de cliente, assinalado acima.

Nada obriga à exposição das razões que levam um cliente à rescisão de um contrato deste tipo. Neste caso particular, porém, é meu desejo informar-vos por que tomei a decisão de rescindir.

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Jerusalém e Sodoma

[do Público de 15 Julho 2006]

Se tivessem fé verdadeira deixariam esse trabalho para as mãos de Deus: “Jerusalém transformar-se-á em Sodoma, e Deus aniquilá-los-á naquele lugar”.

No Médio Oriente e, em particular, na Terra Santa, o conflito entre religiões é tão perigoso que a opinião pública mundial chega a revelar sinais de desespero. Em todo o mundo perguntam-se as pessoas: não haverá sequer um ponto de contacto, ao menos um único assunto sobre o qual as religiões do livro — judaísmo, cristianismo e islamismo — estejam de acordo? Ao contrário do que poderia parecer, há uma esperança de concórdia, muito simples por sinal. Resume-se numa palavra: homossexuais.

Conforme noticiou a imprensa desta semana, todos os líderes religiosos de Jerusalém condenaram a possibilidade de passar pelas ruas da “cidade santa” uma marcha de homossexuais. Houve protestos unânimes de rabinos, imãs e xeiques; padres católicos, coptas e ortodoxos; líderes xíitas, sunitas e sufitas; judeus hasídicos, sefarditas e ashkenazitas.

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Domingo no Nimas

LISBOETAS, de Sérgio Tréfaut, entra na sua última semana de exibição em Lisboa, depois de três meses no cinema King. Para assinalar o maior sucesso de sempre de um documentário português estreado nos cinemas, a Atalanta Filmes organiza uma sessão especial com a presença do realizador, de Rui Tavares e de Pedro Mexia. Dia 16, Domingo, às 19 horas, no Cinema Nimas, em Lisboa.

Pedir demais

[do Público de 8 de Junho 2006]

O problema não está nas coisas em que os partidos de esquerda divergem. Está naquelas em que eles convergem.

A semana passada escrevi sobre os atavismos da nossa direita e o que tive a dizer não foi simpático. A direita portuguesa, mesmo nos seus melhores exemplos, tem aquela lusitana e velha tendência para a arrogância social, a hipocrisia e o autoritarismo. Mas a nossa esquerda tem também os seus atavismos e, uma vez que sou de esquerda, sinto a obrigação de ser ainda menos simpático. Na verdade, nem é por obrigação. É por impaciência: são já demasiados anos a aturar o dogmatismo, a irresponsabilidade e a velhacaria entre partidos de esquerda.

Desejo esclarecer que aquilo que eu deploro não é a diferença entre os partidos de esquerda. Bem pelo contrário. O PCP é um partido revolucionário e marxista-leninista, o BE é um saco de gatos anti-capitalistas com medo do poder e o PS é um saco de gatos com gosto pelo poder e uma espécie de ideologia extremista da moderação. Na medida em que há opção e variedade, nada disto me incomoda.

Só que o problema não está nas coisas em que os partidos de esquerda divergem. Está naquelas em que eles convergem. Para provar cabalmente esta asserção, consideremos o caso do aborto.

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TS Ronaldo

Há ingleses que andam lixados por causa de Portugal ter eliminado a Inglaterra do Mundial de futebol, no último Sábado. Para eles, o momento crucial do jogo foi a expulsão de Wayne Rooney, a expulsão de Wayne Rooney aconteceu por culpa dos portugueses e tudo está provado numa piscadela de olho [“a wink”] de Cristiano Ronaldo que ficou registada por uma câmara. Neste artigo do The Guardian já foram publicados mais de 800 comentários sobre o tal diabólico wink.

Já lá fui deixar, sob pseudónimo, a minha posta de pescada. Basicamente, o Cristiano Ronaldo fez foi reescrever o célebre final de The Hollow Men, de TS Eliot, que agora passa a ser assim:

This is the way the World Cup ends,
This is the way the World Cup ends,
This is the way the World Cup ends.

Not with a bang but a wink.

Não há “Portugal profundo”

[do Público de 1 de Junho]

A explicação do “país profundo” é sedutora e útil: permite-nos varrer para debaixo desse tapete um monte de coisas embaraçosas. Mas é falsa e não resiste a um olhar mais atento.

Esta semana andámos entretidos com a notícia de que Fernando Ruas, Presidente da Câmara de Viseu, incitara os seus concidadãos a “correr à pedrada” os inspectores do ambiente, insistindo que estava a “medir bem as palavras”. Confrontado com a gravação feita na ocasião, Fernando Ruas não se atrapalhou e disse que apesar de “bem medidas”, as suas palavras não eram “para levar à letra”. “Também aqui na zona se utiliza ‘chegar fogo ao rabo’ e ‘uma corrida em pêlo’”, disse Ruas ao Diário de Notícias, “o importante é o significado”.

Qual será, então, o significado? As leituras nos media inscrevem-se na velha tradição do “Portugal profundo”, ou seja, a ideia de que coexistem dois países neste rectângulo, um deles sofisticado e o outro troglodita. Esta dicotomia aparece bem clara na ilustração que um dos melhores cartunistas nacionais, Bandeira, fez publicar no mesmo Diário de Notícias: sob a legenda “no país da banda larga”, vê-se um Fernando Ruas ainda na Idade da Pedra. Para um historiador, isto evoca irresistivelmente os nossos debates: é suposto que o reino fosse muito centralizado, mas na verdade os corregedores da coroa andavam muitas vezes corridos à pedrada (e à bosta…) por esse país afora.

A explicação do “país profundo” é sedutora e útil: permite-nos varrer para debaixo desse tapete um monte de coisas embaraçosas. Mas é falsa e não resiste a um olhar mais atento. Vejamos.

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