Arquivo mensal para June, 2006

No olho da rua

[do Público de 24 de Junho 2006]

Já fui despedido. Chamaram-me para uma reunião no meio das férias. Não me tinham dito para que era aquilo. Podia até ser uma “coisa boa”, estava na altura de entrar “para o quadro”. Havia um ano novo para preparar e as minhas avaliações tinham sido boas. Quem sabe até se não viria ali uma promoção? Cheguei recapitulando mentalmente o meu desempenho. A gestora chamou-me pelo nome de outro colega e começou por me explicar como tinha dormido mal a noite, como andava tensa, como lhe custava fazer aquilo — e aí eu já só pensava em abreviar-lhe o sofrimento, reconhecer que me encontrava sem emprego, e sair porta fora. Por dentro contestei que ela continuaria dormindo mal, mas com emprego certo. Quando abri a boca foi para perguntar, num fio de voz, o que tinha eu feito mal. Nada, disse-me; tinham simplesmente de despedir gente. Eu era mais fácil de despedir — eu e todos os que não estavam “no quadro”. Na verdade eu nem estava exactamente a ser despedido, uma vez que sempre estivera “a recibos verdes”. Aliás, já era uma delicadeza informarem-me da nova situação; noutros casos de colaboradores menos leais acontecia voltarem de férias e simplesmente não terem trabalho.

Cá fora, no olho da rua, caminhei muito devagarinho. Tinha os pulmões sem ar e uma tontura na cabeça. O que dizer em casa? Como fazer agora?

Ser despedido é um elemento central da consciência contemporânea.

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Blogues [de amigos]

No Caderno de Verão juntam-se o António Figueira, o Ivan Nunes, a Joana Amaral Dias e o Nuno Ramos de Almeida. Se eu este ano tivesse Verão que se visse, era rapaz para me juntar a esta talentosa equipa de vólei de praia. Para já, confiram o forte serviço do António Figueira — o rapaz está em forma!

N’O Avesso do Avesso, o Filipe Moura (a quem aproveito para mandar um abraço) faz referência simpática a este blogue, mas obriga-me a um esclarecimento sobre o subtítulo aqui aqui do botequim.

Este “Melhor dos Blogues Possíveis de Rui Tavares” é inspirado no Professor Pangloss do Cândido de Voltaire, e é uma forma ínvia de fazer publicidade à minha tradução. E precisa de um bocadinho de teoria dos grupos para ser decifrado. Este blogue não é

[O Melhor dos Blogues Possíveis] de Rui Tavares
mas
O Melhor [dos blogues Possíveis de Rui Tavares]

Ou seja: é, muito portuguêsmente, o melhorzinho que consigo arranjar de momento. Melhores tempos virão.

A Mãe de Bragança

Foi então que compreendi: Pacheco Pereira tem ciúmes do futebol. Tal como as Mães de Bragança, é mais forte do que ele; não consegue deixar de falar no motivo do seu tormento.

Fascinou-me, aqui há uns anos, aquela organização que deu a si mesma o nome de “Mães de Bragança”. Nome enganoso, diga-se. As fundadoras do movimento apresentavam-se como mães mas, na realidade, era como esposas que se indignavam. Os seus maridos, diziam, andavam enlouquecidos pelas casas de alterne da região. Mulheres estranhas faziam-nos gastar o dinheiro que não tinham. A obsessão deixava os homens irreconhecíveis e, por vezes, até motivava uma pergunta: haveria feitiço? talvez droga nas bebidas?

Portugal, que raramente dá notícias ao mundo, encheu páginas de jornal com esta história pungente de mulheres assarapantadas por realidades que não dominavam. Como não havia ali nada de propriamente novo, justificou-se a atenção com diagnósticos sobre a globalização, o mercado livre, o fast food dos afectos. Mas lá no fundo era de ciúme, do antiquíssimo ciúme que se tratava. E como já todos sentimos ciúme, todos simpatizámos com aquelas mulheres a um nível humano e fundamental.

Confesso que é mais ou menos da mesma forma que tenho andado fascinado, nas últimas semanas, com Pacheco Pereira.

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O que há numa data

[do Público, 10 de Junho 2006]

A estupidez do racista não é uma estupidez qualquer. É uma estupidez monumental: tem escadaria e dez quartos-de-banho, dá muito trabalho a manter. Qualquer distracção e poderia ficar-se mais inteligente.

Passam hoje onze anos sobre o assassinato de um português mulato, Alcino Monteiro, às mãos de um bando de racistas.

É hábito da imprensa descrever Alcino Monteiro como “cidadão cabo-verdiano”. Isto é incorrecto. Alcino Monteiro era cidadão português, por naturalização, com Bilhete de Identidade e até serviço militar feito nas Forças Armadas deste país. Outras vezes aparece descrito como “de origem cabo-verdiana”, e fica insinuado que foi esta a motivação do assassinato de que foi vítima. Mas não foi por ser “de origem cabo-verdiana” que mataram Alcino Monteiro: se ele fosse cabo-verdiano e branco não lhe teriam tocado. Alcino Monteiro era português e foi assassinado por outros portugueses que não gostavam da cor da sua pele.

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Futlit: Itália

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A Itália joga em catenaccio (e não catennacio como escrevi antes), que quer dizer literalmente “cadeado”. é um sistema ultra-defensivo que se destina a ganhar jogos por 1-0, em contra-ataque. embora a itália já não pratique verdadeiro catenaccio, continua a ter um futebol defensivo, e é ainda pelo catenaccio que é conhecida. os italianos defendem-se dizendo que defender também é jogar.

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Aniversário

Há exactamente 231 foi inaugurada a estátua equestre de Dom José I, em Lisboa, no dia do 61º aniversário do monarca. Os festejos duraram três dias e foram dos mais grandiosos que a corte já vira até então. E hoje, sem dar pela coincidência, regressei ao capítulo de um livro futuro precisamente sobre este assunto.

Matematicamente

N’A Praia, o Ivan Nunes comenta assim a posta camoniana de aí abaixo:

“É claro que gostoso é uma palavra muitíssimo comum entre nós. Talvez a embirração seja com «gostosa», no sentido de «boazona»: isso, sim, seria uma importação do Brasil. E, na minha impressão, não das mais felizes.”

Discordo. Camões sabia o que fazia. Olhemos para a palavra pelo que ela vale. A probabilidade de perdido no Oriente Camões se ter perguntado qual era mais gostosa, se Dinamene se Bárbara, aproxima-se de um. A probabilidade de ter respondido que uma era mais boazona que outra é, matematicamente, zero.

Porquê?

Resposta neo-platónica: o critério aqui não é o da bondade; é o do gosto mesmo.

Em defesa de “gostoso”

No último Câmara Clara (canal 2:, sextas, 22h30), o crítico e professor Abel Barros Baptista contou uma história sobre um taxista (português) que se tinha queixado a um escritor (brasileiro) da contaminação de brasileirismos no português europeu. A palavra que levantava problemas era “gostoso” que também já em tempos a Bomba Inteligente colocara na sua lista de palavras a abater. A implicação é a de que “gostoso” não pertence à língua de Camões.

Chegou pois o momento de resolver o assunto em duas penadas:

uma)

Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia…

duas)

Mil vezes perguntava e mil ouvia
As gostosas batalhas que ali via.

Os Lusíadas, caríssimos. Respectivamente, estrofe 99 do canto IV e 43 do VIII. Nas Rimas e no teatro do glorioso zarolho também não faltarão exemplos. Fica então claro que aquilo que muitos decretam que seja “a língua de Camões” não tem nada a ver com a língua do Camões propriamente dito.

Resta acrescentar que “gostoso” não tem nada de brasileirismo (e se tivesse?). No Norte de Portugal é palavra perfeitamente comum, e sempre foi. Arriscaria a hipótese, aliás, de que foram os nortenhos a implantá-la com tanto sucesso no Brasil.

O problema é que, para muita gente, tudo o que por acaso ou contigência deixou de se usar no dialecto lisboeta deixou de ter direito a ser “português de Portugal”. O exemplo mais claro é o do gerúndio, que supostamente os portugueses não utilizariam. E depois fazem um esgar de estranheza quando ouvem os brasileiros (ou os portugueses que não imitam os lisboetas) falar português que até pode ser do mais castiço. Camoniano. E gostoso.

As costas largas de Deus

[do Público, 4 de Junho 2006]

“Onde estava Deus nesses dias? Porque ficou silencioso?” Eis uma questão muito perturbante, desde logo para a doutrina de um Deus omnipresente e omnisciente.

Vai amanhã passar uma semana sobre a visita do Papa ao campo de concentração de Auschwitz. O Papa, que repetiu uma visita já realizada pelo seu antecessor polaco, é alemão. Em muita imprensa, incluindo o Público, o gesto de Ratzinger foi comparado ao de Willy Brandt quando na sua visita à Polónia, em 1970, furou repentinamente o protocolo e se ajoelhou em silêncio junto ao monumento às vitimas do Levantamento do Ghetto de Varsóvia.

Ser Papa só pode ser, com toda a certeza, um dos trabalhos mais fáceis do mundo (logo após, provavelmente, o de Presidente da República Portuguesa). Qualquer pequeníssimo passo do Vaticano, por mais imperceptível ou rotineiro, é sempre noticiado como se fosse a chegada à Lua ou a queda do Muro de Berlim.

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Lê-me

[publicado na revista Os Meus Livros de Maio]

No passado dia 27 de Março morreu Stanis?aw Lem, escritor e ensaísta polaco de 84 anos de idade. Revolvi as estantes à procura dos livros que tinha dele. Demoraram a aparecer os livros; encontrei os meus doze, treze, catorze anos de idade.
Apareceu A Porta para o Verão, de Robert A. Heinlein [1907-1988], um dos títulos mais felizes que conheço para um livro ágil, caloroso e juvenil. Depois pus as mãos em A Cidade Fantástica, memória da infância e adolescência de Ray Bradbury [1920-]. Enganado pelo título e pela reputação do autor, lembro-me de o ter lido sempre tenso, na expectativa de ver chegar uma invasão de extraterrestres. As coisas fantásticas de que falava o título eram assim: um par de ténis novos, brigar com o irmão mais velho ou uma noite de sábado com sorvete e filme de caubóis. Depois procurei o meu favorito, o clássico checo A Guerra das Salamandras, de Karel ?apek [1890-1938], uma das melhores obras quase desconhecidas da literatura europeia.

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