Arquivo mensal para May, 2006

As carpideiras

[do Público de 26 de Maio]

É um anseio mórbido, como torcer por Leôncio a cada episódio de A Escrava Isaura. Também eu gostaria que se atacassem os clássicos para me poder erguer e, tonitruante, me declarar o último e mais sincero defensor dos clássicos.

Na passada quinta a Casa Fernando Pessoa organizou uma sessão dedicada ao tema “Os Clássicos devem ou não ser estudados na Escola?”. Para discutir o assunto estavam na mesa Vasco Graça Moura, Maria Filomena Mónica, Clara Ferreira Alves — além do moderador Carlos Vaz Marques, o escritor Gonçalo M. Tavares (que não é meu primo) e o editor Guilherme Valente, que também participou vivamente no debate. Todos os oradores, sem excepção, defenderam o dever de se estudar os Clássicos na escola. Diferenças apenas houve de método, ou de definição do conceito de clássico, ou da necessidade de um “cânone” de autores: Vasco Graça Moura abriu uma excepção para o inquilino da casa, Fernando Pessoa, ao passo que Filomena Mónica recusou terminantemente que se ensinassem autores do século XX.

Na sala cheia toda a gente estava a favor dos clássicos; gerou-se o consenso de que o melhor método para ensinar os clássicos era o que cada um defendia, e que o dos outros era provavelmente desastroso.

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Les copains d’abord


Théodore Géricault, Cena de motim na Jangada do «Méduse», esboço para o quadro do Louvre.

Não, não era a Jangada do Medusa aquele barco que dizem ter naufragado. Chamava-se Barnabé, a tripulação salvou-se inteirinha e segue na faina. A amizade ainda é a sua bússola.

O mais recente a fazer-se ao mar é o Daniel Oliveira, que agora navega em solitário, sobre a grande maré da blogosfera, no seu Arrastão. Foi sempre um dos corsários mais temidos, e por isso mais atacado. Tremei, que ele voltou.

Consolado

Cheguei a acordo com o Público para duplicar a minha coluna dos sábados aqui no blogue. A coluna do último sábado já está disponível aí abaixo, as outras seguirão regularmente às segundas.

Isto obriga a algumas mudanças. Este blogue foi planeado como página de apoio ao Pequeno Livro do Grande Terramoto e servindo, em primeiro lugar, o meu trabalho como historiador. Tratava-se de um blogue discreto, que já existia desde antes dos tempos do Barnabé para facilitar a comunicação com os que então eram meus alunos.

Entretanto saiu outro livro, o Pobre e Mal Agradecido. Por não ser um livro de história (embora tenha ensaios, entre outros, de história da arte) e por falta de tempo, não lhe dei até agora a atenção que (como a um fiilho mais novo) lhe devia. E entretanto saiu a tradução do Cândido, que não sendo propriamente filho meu, também merecia algum carinho.

O ideal, na minha perspectiva, seria manter a separação entre o blogue de historiador e o blogue de assuntos correntes. Mas por razões de tempo já me tem sido difícil manter um blogue, quanto mais dois, de forma que irei juntando por aqui todo o meu material, tentando identificá-lo (e distingui-lo) pelo sistema de categorias. Brevemente haverá outra coluna que também virá aqui parar. E há outras coisas a caminho.

Para adaptar o blogue a estas mudanças, o nome vai mudar, o conteúdo e o grafismo também vão levar uns toques. E as actualizações serão mais frequentes. Espero. Pelo menos não haverá estes buracos de mais de um mês sem textos novos.

Na verdade, continuo a não poder blogar. Aquilo a que se chama verdadeiramente blogar implica escrever todos os dias (ou quase), estar em cima dos acontecimentos ou (pelo contrário) atento a si mesmo, replicar, treplicar e comentar.

Mas como prémio de consolação sempre dá para ir mantendo este meu consulado honorário na blogosfera.

Ter algo a perder

[da coluna do Público, 20 maio 2006]

Quando se acha que não há nada a perder, muda a racionalidade, mudam as emoções, muda a moral da história e muda o peso da ética. O crime não compensa? Comparado com a miséria compensa. Comparado com a pobreza engana.

Tal como cada brasileiro é – ou julga ser – um especialista instantâneo em insegurança, não há quase português que não se tome por especialista em Brasil. No Brasil, a experiência da violência está muito longe de ser permanente; o discurso sobre ela sim. Toda a gente tem a sua manha para contar, o seu conselho sobre vestuário, a sua rotina mecanizada para contornar a violência. Este discurso chega a Portugal e transforma-se numa mercadoria de opinião; com quinze dias em Jericoacoara, os portugueses já sabem mais sobre o Brasil do que Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda alguma vez imaginaram. Na televisão, os comentadores repetem pela enésima vez o mito da inexistência da classe média brasileira. Cansaço.

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