Arquivo mensal para Março, 2006

Stanislaw Lem


1921-2006

Passei tantas tardes e noites a ler livros de Stanislaw Lem que seria injusto não o trazer para um memorialzinho em minha casa.

[Em breve: bricolage neste blogue]

Uma nota sobre a fluidez das gravuras

Um leitor d’O Pequeno Livro, António Carvalho, enviou-me esta pergunta sobre a gravura aqui acima:

«…fiquei com uma dúvida quanto à ilustração do capítulo 8. Diz ser essa ilustração uma representação do auto-de-fé do padre Gabriele Malagrida, morto pela inquisição em 1762, na Praça do Comércio, nessa data o Paço que dava nome ao Terreiro já tinha desaparecido, no entanto, a gravura mostra em fundo o Paço Real intacto. Será o auto-de-fé de outra pessoa realizado antes do terramoto, ou o autor da ilustração não quis representar ruínas? Foi o Padre Malagrida o primeiro e último auto-de-fé na Praça do Comércio?»

Eu já estava há uns tempos para escrever sobre este assunto, até porque outros leitores já me tinham feito mais ou menos a mesma pergunta. Mas como tenho andado mal de tempo, acabava sempre por adiar uma posta mais formal sobre um tema que facilmente poderia degenerar num quase-artigo. Fica aqui então, a resposta que enviei por email ao António Carvalho (a quem agradeço). Na esperança de que agora, com um pouco mais de tempo, consiga dar mais rodagem aqui ao blogue.

«Caro António Carvalho:

Obrigado pelo seu email. As gravuras da época moderna apresentam sempre inúmeros problemas de interpretação e não devem nunca ser levadas à letra (à imagem?) como fazemos hoje (também ingenuamente) com as fotografias. Tentei dar uma ideia dessas dificuldades na análise que faço à gravura do capítulo XI, mas lamento que a referência à gravura do capítulo VIII, a que se refere, possa contribuir para uma identificação demasiado directa da ilustração com o acontecimento.

Um dos problemas tem precisamente a ver com aquilo que V. identificou: o desenhador/gravador (nem sempre a mesma pessoa) justapõe uma descrição de um acontecimento com uma imagem anteriormente disponível de uma cidade, monumento ou paisagem. Imagine: sabe-se, no local onde chegou a notícia, que houve um auto-da-fé em Lisboa, e tem-se uma descrição sumária do que ocorreu (quantos executados, quanto público, etc.). Num segundo momento, procura-se o contexto, ou seja, vai-se em busca de gravuras antigas com a paisagem onde se deu o aocntecimento. E um desenhador/gravador junta as duas coisas.

Num caso como o de Lisboa, após uma catástrofe violenta, sai disparate: um terreiro do paço com o paço idêntico ao que existia antes de 1755. O que é impossível.

Mas no que diz respeito ao auto-da-fé de 1762, há ainda um detalhe suplementar que vem aumentar a confusão: é que na verdade ele não foi no Terreiro do Paço/Praça do Comércio, como já sucedera com muitos outros, mas antes no claustro do convento de São Domingos, ao Rossio. Mas a imagem auto-da-fé português na imaginação europeia, nomeadamente na chamada “lenda negra” da Inquisição, estaria mais ligada ao palco do Terreiro, e isso terá levado a melhor.

Estou há tempos para tratar desta questão num texto para o blogue do terramoto, até porque tenho ideia de que um comentador também já levantou uma dúvida semelhante. Mas não tenho tido folga de tempo para o fazer. Vejo agora que ao responder ao seu email tentei um início de resposta. Permitir-me-ia que citasse parte da sua pergunta e que colocasse tudo isto no blogue, para benefício de outros eventuais interessados?

Com os melhores cumprimentos

Rui Tavares»