Arquivo mensal para Janeiro, 2006

Já agora

Por causa do prémio de melhor ensaio a que me refiro abaixo, o Pequeno Livro do Grande Terramoto será tema do próximo programa Livro Aberto, a ser transmitido no sábado 21 (às 23h00) na RTP-N, e que repete depois por diversas vezes nesse canal e na 2: (ver os horários aqui). Estive em estúdio com Francisco José Viegas, Eduardo Pitta, João Pedro George e Pedro Mexia, conversámos um pouco sobre o Pequeno Livro, e bastante sobre os restantes livros que foram votados no prémio Livro Aberto. Para nós, pelo menos, a conversa foi interessante. Espero que vocês gostem também.

Obrigadinhos

O Pequeno Livro do Grande Terramoto ganhou a votação para melhor livro de 2005, na categoria de Ensaio. Esta votação foi promovida pelo programa “Livro Aberto”, da RTP-N e da 2:, o blogue correspondente, e o suplemento “Mil Folhas” do Público, em cujo número de hoje vêm também publicados os resultados.

A notícia deixou-me (ai!…) um pouco mais vaidoso do que a média habitual, mas sem conseguir encontrar ainda o tom certo para a resposta. Estou hesitante entre começar a referir-me a mim mesmo na terceira pessoa, como fazem os futebolistas (o Rui Tavares deu o seu melhor, etc.) ou adoptar a pose presidencial, mais conforme com a época. Antes que alguma dessas calamidades aconteça, deixem-me só agradecer a todos os que até agora leram e gostaram do livro, e como é natural àqueles que nele votaram.

E agora vou almoçar.

O ano que passou

Pediram-me, do suplemento Mil Folhas do Público, que participasse numa daquelas escolhas típicas da quadra. O texto que se segue é o mesmo que enviei, e que pode ser lido na edição do último sábado – junto às escolhas de muitas outras pessoas. A quem possa interessar, aqui fica.

1. Os Emigrantes, de WG Sebald (ed. Teorema)

2. O Mal no Pensamento Moderno, de Susan Neiman (ed. Gradiva)

3. Dance dance dance, de Haruki Murakami (ed. Estação da Liberdade, de São Paulo, Brasil)

4. Reflexões sobre a vaidade, de Matias Aires (ed. Estampa, já antiga)

5. Paradise Lost, de John Milton (ed. MacMillan de 1885, comprada em alfarrabista)

Os pressupostos destes jogos literários sugerem que o participante tenha 1) fundos ilimitados para compra de novidades editoriais; e 2) dias com mais cinquenta horas. Há também uma certa obrigação democrática de privilegiar títulos a que o leitor tenha um acesso razoável, nomeadamente que estejam traduzidos para português e cujos exemplares se encontrem nas livrarias das maiores cidades do país. Aqui do meu lado, a porca torce o rabo enquanto tento cumprir com esta missão. Desde logo, porque a crise me forçou (tal como, estou certo, a muitos dos que me lêem) a moderar as minhas compras de novidades de catálogo com leituras na web e em bibliotecas. E em segundo lugar, porque a ideia de “novidade” para um historiador tem caprichos particulares que não se regem pela data que se encontra na ficha técnica ou se descobre pelo depósito legal. Juro que tentei jogar o jogo dos “melhores de 2005” sem falsear muito as regras. Vocês decidirão do resultado.

1. WG Sebald é um milagre da literatura; um autor que se poupou do público até à maturidade e surgiu já completamente formado no domínio do seu mundo. É dessa época Os Emigrantes, um conjunto de quatro contos, publicado este ano pela Teorema. Em 2000 este foi o primeiro de Sebald que li, na sua versão inglesa (os originais são em alemão). A partir de metade do livro dei por mim subjugado; no fim já chamava nomes ao autor por pura inveja: “como é que este sacana consegue escrever tão bem?”. Mas não só ele conseguia Os Emigrantes, como em 2001 atingiu a grandeza literária de Austerlitz (já publicado em Portugal pela Teorema), e que para mim e muita gente continua ser o melhor livro deste século de cinco anos já contados. Depois de publicar Austerlitz, Sebald teve um enfarte enquanto conduzia a filha a casa e morreu no acidente de automóvel que se seguiu. Ao todo, entre 1990 e 2001, viveu apenas onze anos como escritor, mas fez um caminho da maior consistência e originalidade – pelo que me apetece dar uma bicada na opinião de Eduardo Pitta, que se referiu recentemente a Sebald como um autor a quem se presta vassalagem por moda literária. Pois eu prefiro participar desta unanimidade-sem-Pitta em torno de Sebald do que perder um autor destes por desconfiança das modas. Tenho dito.

2. O mesmo vale para o elogiadíssimo ensaio de Susan Neiman sobre O Mal no Pensamento Moderno, publicado este ano pela Gradiva, uma “história alternativa da filosofia” cujo argumento muito bem cosido, que vai da Lisboa de 1755 à Auschwitz de 1945, se lê com muito proveito. Este foi um livro do meu 2005 também por razões pessoais: enquanto escrevia O Pequeno Livro do Grande Terramoto, o texto audacioso de Neiman deu-me coragem para pegar em 1755 por pontas de que os historiadores normalmente se resguardam. Tenho-lhe esta dívida pública por pagar.

3. Sempre tive a fézada de que aos livros de Haruki Murakami assentaria especialmente bem o português de São Paulo, não só por esta ser a única metrópole lusófona da divisão de Tóquio, onde se passam muitos dos romances murakamianos, mas também por ser esta a cidade onde vive a maior comunidade de japoneses fora do Japão. Em 2005 uma editora sedeada no bairro japonês-paulista da Liberdade publicou um dos melhores de Murakami, Dance dance dance, em tradução de Lica Hashimoto e Neide Hissae Nagae. Talvez melhor ainda é Caçando Carneiros, praticamente a primeira parte de Dance dance dance, que já tinha sido publicado pela mesma editora – Estação Liberdade – em 2001. Recupero Dance dance dance para esta lista somente para espicaçar as editoras portuguesas, que após um ímpeto inicial de dois títulos assim mais para o levezinho não voltaram a publicar Murakami, nem nunca o traduziram do original apesar de haver quem o possa fazer. Na verdade, o meu Murakami do ano foi a série de entrevistas às vítimas e autores dos ataques de gás sarin que há dez anos lançaram o pânico e a morte no metro de Tóquio. Chama-se Underground. The Tokyo gas attacks and the japanese psyche. As entrevistas aos membros da seita religiosa que planeou os ataques produzem no leitor uma espécie de efeito magnético, viciante e assustador. No que ao terrorismo, à religião e ao mal diz respeito, temos aqui mais sumo do que em todos os neoconservadores nacionais e estrangeiros espremidos juntos.

4 e 5. Para os últimos dois títulos decidi esquecer as novidades de catálogo e assinalar os dois livros que mais novos me pareceram, nas ideias e na linguagem, apesar de nos chegarem do século XVIII e XVII, respectivamente. Este foi o ano em que foi concedido mergulhar a fundo nas Reflexões sobre a vaidade, de Matias Aires – numa edição pequenina e antiga, da Estampa, que agora tenho quase sempre no bolso do casaco – e no Paradise Lost de John Milton, que leio antes de dormir. Uma das minhas decisões de ano novo passa por estes dois livros, mas é segredo.

Parem as máquinas


Morreu Ilse Losa.