Arquivo mensal para Novembro, 2005

As intermitências da vida

O mais provável é que este blogue não seja actualizado nos próximos quinze dias. Depois dessas duas semanas (ou com alguma sorte, talvez até durante, mas não quero prometer) tenho algumas surpresas pensadas aqui para o estaminé, uma delas em colaboração com um venerabílissimo blogue, outra delas em colaboração com este colóquio.

Enquanto estivermos a meio-gás, aconselho vivamente a leitura regular do De Lisboa, esse sim a todo o gás com uma série de postas sobre a história do Rossio e da Praça da Figueira.

Lançamentos

O Pequeno Livro do Grande Terramoto vai ser lançado hoje às 16h30, na Livraria Bertrand do Centro Comercial Dolce Vita no Porto.
Amanhã, dia 19, às 14h30, será lançado na Livraria Bertrand do centro comercial Dolce Vita em Coimbra.

Da imprensa estrangeira

Um editorial do New York Times sobre os 250 anos do Grande Terramoto, por Liam M. Brockey da Universidade de Princeton.

Duas Lisboas


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Começamos do alto com esta sobreposição das duas lisboas, a pré-1755 nas manchas a cinzento e a nossa Lisboa actual nas linhas negras. Os nomes de alguns pontos de referências de “antes” estão a cinzento, os de “depois” estão a negro. Este exercício já foi feito em outras ocasiões (a começar pelos planos de reconstrução). Aqui, o mapa pré-1755 é uma síntese minha, a partir do célebre mapa de Tinoco (c. 1650) e completada pelas especulações de Vieira da Silva e de outros em torno das comemoraçãos dos 200 anos do Grande Terramoto em 1955 (comemorações que – é um pouco triste dizê-lo – tiveram mais empenho oficial do que as actuais dos 250 anos). O desenho do mapa (e dos próximos a ser publicados) é da Vera Tavares, que não é minha parente mas é quase como se fosse. A ela o meu agradecimento.

Para já não nos interessam os detalhes. Convido o leitor a observar as manchas que representam o casario e os arruamentos da Lisboa de antes do terramoto. Do lado direito do mapa, a cidade desce a colina oriental da Sé e de Alfama e vemos como a Baixa é o prolongamento natural, “orgânico”, dessa Lisboa medieval cristã e também árabe. Repare-se que, ao contrário de hoje, apenas uma rua faz a ligação directa (ou quase) entre o Terreiro do Paço [hoje Praça do Comércio] e o Rossio [hoje Praça Dom Pedro IV]. É a Rua dos Ourives do Ouro, mas ao contrário da actual Rua do Ouro (ou Áurea, como lá está nas placas) é uma rua um tanto sinuosa, que corta obliquamente a Baixa e que tem uma largura irregular. Daqui para a esquerda do mapa começa a subir a colina ocidental que leva ao Chiado, ao Carmo, ao Convento de São Francisco (hoje Faculdade de Belas Artes, Governo Civil de Lisboa e Museu do Chiado) e, finalmente, o Bairro Alto que era já fora das antigas muralhas fernandinas da cidade. As ruas regularizam-se um pouco, os quarteirões são unidades maiores, o número de becos diminui um pouco. Para lá das Portas de Santa Catarina [onde hoje é o Largo das Duas Igrejas, que poucos conhecemos por esse nome, entre o Chiado e Camões] estava o Bairro Alto “de São Roque”, onde já havia cidade com planta ortogonal.

Para nos habituarmos à Lisboa de antes de 1755 temos de contrariar alguns dos nossos adquiridos quotidianos (principalmente se formos lisboetas ou conhecermos bem a cidade). Um deles diz respeito ao relevo. E nem sempre os mapas, com os seus modos de casca de laranja esticada, nos fazem o trabalho todo. É preciso pôr a imaginação a mexer. A Baixa de 1755 não era plana, embora o seu relevo fosse naturalmente menos acentuado do que nas colinas que a flanqueavam a nascente e a poente. No entanto, aquelas ruas circulares, aqueles quarteirões trapeizoidais e outras criações ainda menos geométricas não nasceram por acaso, mas também para se afeiçoarem aos altos e baixos do vale. Por isso não podemos olhar para este mapa e imaginar que caminhamos por aquelas ruas como pelas vias planas da Baixa de hoje. Todo o vale foi terraplanado, usando-se os escombros dos antigos prédios para criar o declive suave, quase insensível, que desce do Rossio até ao Tejo. Mas antes de 1755 não precisaríamos apenas de contornar as ruas e evitar os becos para andar por ali; teríamos também de subir e descer, determo-nos para recuperar o fôlego e ter cuidado com as rampas durante a chuva. Paremos agora, finalmente, para podermos imaginar.

Onde estão os barnabés

Se não o fossemos já, diria que um dia seremos como os velhos camaradas de guerra que se procuram em anúncios de jornal para patuscadas. Os barnabés vão voltando à blogosfera, desta vez discretamente como lhes aconselha o colesterol alto. Eu aqui estou na minha xafarica sísmica, monotematicamente e monotonamente até quando for preciso, falando de 1755. O Celso Martins e o Nuno Sousa estão no Fuga para a Vitória, o melhor blogue por descobrir e onde se está a revelar um futuro mestre da bloga – também velho amigo meu e do Barnabé – Renato Carmo. E agora o André Belo fundou o Garedelest – leia-se garedeléchte, à tuga. É um blogue para já indispensável a todos os que quiserem fazer uma ideia minimamente séria da França contemporânea, mas parecem que estes são quase ninguém.

Agradecimentos

Finalmente um tempinho para cuidar do blogue e para começar quero agradecer a todos os que tiveram a simpatia de ajudar a divulgar este blogue ou me desejaram um bom regresso à blogosfera. Fizeram-no todos com muita bondade, daquela bondade que há quem diga que a blogosfera não tem. Estão neste caso todos os seguintes que o technorati permitiu identificar, e outros que se hão-de ir juntando a esta lista:

ABnose; A Blasfémia; O Acidental; Adufe; Almocreve das Petas; Asilo do Obstinado; Blogville; Briteiros; Causa Nossa; Esplanar; Forum Comunitário; Fotografia e Xadrez; Fuga para a Vitória; Great Big Lie; Laranja Amarga; O Olho do Girino; A Origem das Espécies e mais este sidecar-blog de Francisco José Viegas; Pauloya; A Praia do Ivan; Random Blog; Renas e Veados; Rua da Judiaria; Serras; Tasca da Cultura e Vida Agridoce

A conta-gotas

Dias cheios para os historiadores terramotistas, com três colóquios quase em simultâneo – para além daqueles que já passaram, como foi o caso do organizado pela Universidade Nova de Lisboa. Eu vou estar aqui, mas cheio de vontade de estar aqui ou acolá – tal como em Outubro assisti a este aqui.

Na prática, isto quer dizer que algumas tarefas daqui da minha casa terão de ir sendo feitas a prestações. Entre elas, agradecer a todos os que ajudaram a divulgar este blogue, colocar funcionais todos os links laterais e publicar online um dos primeiros mapas que tenho reservados para vocês.

Mas temos muito tempo, não é verdade?

De madrugada

As dezenas de milhares de pessoas que tentavam dormir ao relento ao redor de Lisboa têm o céu iluminado pelo clarão das chamas que já consomem a Baixa toda. Outros não olham para trás e caminham enquanto podem. Caminharão até Santarém, outros até Coimbra ou até onde puderem. Os que trouxeram dinheiro de casa alugam um burro para lhes levar a família. Outros pagam os serviços de um galego ou de um negro. O pior ainda não tinha passado. Os que estavam encurralados no Terreiro do Paço, rodeados pelas chamas, não tinham barcos que os pudessem tirar dali. Durante o dia, os barcos evitavam chegar-se à margem, com medo de serem virados pela multidão em fuga. Depois de ter caído a noite, nem sequer se aproximavam dos refugiados do terreiro, gente perdida, cansada e que tentava, a custo, dormir em cima dos seus fardos de salvados, com um olho nas àguas do Tejo e outro no fogo do Palácio Real.

Duas da tarde

A esta hora, os lisboetas de 1755 já tinham passado por um terramoto em três actos – três golpes sísmicos muito próximos que no seu conjunto não duraram nunca menos de sete minutos. Cerca de hora e meia depois “a maré subiu e desceu três vezes” – esta foi a forma coomo intepretaram as tsunami que quase cobriram a fortaleza do Bugio e avançaram Tejo adentro destruindo os casarios ribeirinhos de uma da outra margem. Já uma réplica do sismo, por volta do meio-dia, tinha lançado os sobreviventes por terra, enquanto se fugia da cidade arruinada para os campos de Ourique, Santa Clara, Pequeno ou Grande. Agora os fogos começavam a ser a maior preocupação. Viu-se arder a igreja de São Domingos, o palácio do Marquês de Louriçal, e logo nos lugares mais dispersos da baixa surgiam dezenas de outros fogos. Nos seis dias seguintes juntar-se-iam num único incêndio que, aí sim, destruiria a Baixa para sempre. A “nossa” Baixa é outra coisa na mesma localização. A Baixa de 31 de Outubro de 1755 foi perdida.